Projetos de pesquisa

Prof. Danilo Marcondes de Souza Filho

A Retomada do Ceticismo Antigo no Período Moderno (em cooperação com o Professor Sébastien Charles da Universidade de Québec Trois-Rivières)

Richard Popkin mostrou em “A História do Ceticismo de Erasmo a Spinoza” a importância da retomada do Ceticismo Antigo nos séculos XV-XVI como tendo um impacto central na formação do pesnamento moderno.

A presente pesquisa busca seguir o programa de pesquisa de Popkin abrindo novos caminhos, destacando-se duas linhas:

O argumento do conhecimento do criador (maker’s knowledge): Há uma mudança crucial na epistemologia moderna em relação à antiga consistindo na adoção do “fazer” na modernidade como critério de conhecimento, pretendendo assim tornar possível um novo ceticismo, moderado, dando origem a uma concepção experimental e probabilística de conhecimento.

O argumento antropológico: A  história da filosofia não tem dado importância ao descobrimento do Novo Mundo. A pesquisa pretende, ao contrário, mostrar sua importância inclusive na formação do pensamento moderno e na retomada do ceticismo antigo neste período, indicando um questionamento cético sobre a universalidade da natureza humana a partir do contato com os povos nativos.

Pragmática e filosofia da linguagem

Discussão da divisão tradicional das áreas de estudo da linguagem em sintaxe, semântica e pragmática, examinando as origens históricas desta distinção e os seus pressupostos epistemológicos e metodológicos. Com base nessa discussão inicial propõe-se uma defesa de uma concepção pragmática da linguagem. Serão examinadas em seguidas propostas de desenvolvimento dessa concepção, sobretudo com base no conceito wittgensteiniano de “jogo de linguagem”, na teoria dos atos de fala de Austin e Searle e na lógica conversacional de H.P.Grice.

Profª Déborah Danowski

Pensamentos do declínio (apoiado pelo CNPq, em andamento)

A partir dos anos 1990, quando se formou o consenso científico sobre o aquecimento global antropogênico e foi-se tornando cada vez mais evidente a gravidade da atual crise ambiental e civilizacional, vêm se configurando de maneira cada vez mais nítida dois movimentos opostos no domínio discursivo. Enquanto os cientistas publicam cada vez mais artigos que alertam para a probabilidade de que, dada a manutenção e mesmo a aceleração da taxa de emissões humanas de GEE, a vida na Terra enfrente em breve uma situação catastrófica, o uso de expressões como “fim da civilização”, “catástrofe”, “extinção” ou mesmo apenas “decrescimento” ou “declínio” provoca na maioria das vezes fortes reações de aversão, exceto quando para se referir a catástrofes ancestrais, ao fim de outras civilizações ou ao declínio e extinção de populações de espécies vivas não humanas. Passa-se do pressuposto de que o sistema econômico predominante nas sociedades atuais é incompatível com o decrescimento à afirmação de que o decrescimento ou a redução sequer são uma ameaça, que dirá uma opção. Que podemos superar qualquer limite. Que nós (humanos) não podemos estar em declínio, e por isso a catástrofe não pode ser real. Diz-se que a crise ecológica simplesmente não existe, ou que ela existe porém não é tão grave assim, já que certamente será resolvida a tempo por nossos governantes, sempre afinados com os últimos melhoramentos tecnológicos.

De outra parte, porém, temos visto uma crescente quantidade de discursos, acadêmicos e extra-acadêmicos, anunciando algo que até agora parecia estar excluído do horizonte histórico e humano: o fim iminente de nossa civilização ou até de nossa espécie, imaginado seja como consequência de uma catástrofe planetária súbita, ou como um processo progressivo e inexorável de degradação de suas condições de existência, vigentes durante o Holoceno, a ponto de tornar o futuro próximo radicalmente imprevisível, ou mesmo inimaginável fora dos quadros da ficção científica ou das escatologias messiânicas. Na filosofia, se não quisermos remontar até os anos 1950-60 com Anders e suas profundas considerações acerca da ameaça de holocausto nuclear, podemos mencionar autores como Latour e Stengers, entre vários outros, que têm tematizado cada vez mais abertamente a probabilidade de enfrentarmos em breve uma situação ambiental, econômica, política e social catastrófica, isso sem falar na emergência recente de argumentos metafísicos sofisticados (como é o caso de alguns autores associados ao “realismo especulativo”) que, ainda quando não mencionam diretamente a crise ecológica, são, a meu ver, fortemente influenciados pela consciência dessa crise, na medida em que propõem uma superação especulativa do mundo-para-o-homem, de forma a aceder aos objetos mesmos, a um “mundo-sem-nós”, ou uma superação do mundo-como-sentido, de modo a constatar o Ser como pura exterioridade indiferente ao pensamento e à vida em geral.

O objetivo mais geral deste projeto é tentar levar a sério esses diversos discursos sobre o fim do mundo, tomando-os como experiências de pensamento acerca da virada da aventura antropológica ocidental para o declínio, isto é, como esforços de invenção de uma mitologia adequada ao nosso presente.

As naturezas da natureza (projeto concluído)

O objetivo deste projeto é, por um lado, tentar avaliar quais os sentidos predominantes que a noção de natureza assumiu no mundo contemporâneo, neo-liberal e globalizado, e de que maneira esses sentidos contribuem para a grave crise ecológica planetária; e, por outro lado, buscar no pensamento filosófico ou em disciplinas afins sentidos alternativos, não essencialistas e pluralistas, que permitam vislumbrar possíveis saídas para a crise.

Leibniz e a noção de perspectiva (apoiado pelo CNPq, concluído)

São dois os objetivos principais deste projeto: 1) levar a cabo um estudo sistemático e aprofundado dos conceitos de perspectiva e de ponto de vista na obra de Leibniz. 2) mostrar que há uma diferença, e também uma relação, entre duas abordagens em que esses conceitos aparecem na obra de Leibniz: as diferentes perspectivas do mundo como constituindo as diferentes substâncias criadas, e as diferentes perspectivas como constituindo os diversos níveis fenomênicos.

A tipologia das almas em Leibniz (apoiado pelo CNPq, concluído)

Os objetivos mais amplos do projeto são investigar a tipologia tripartite das almas feita por Leibniz em alguns textos centrais da maturidade, e relacionar essa tipologia com a tese do caráter imprescindível da existência de percepções confusas e obscuras nos três gêneros de almas. O objetivo imediato é analisar a relação e a fronteira entre dois eixos de infinitude que parecem caracterizar, de modos diferentes, os três tipos de substâncias: aquele que chamarei de eixo horizontal, que caracteriza o ponto de vista próprio de cada substância (e que deve por isso estar presente em todas elas), e um eixo vertical, que só tem lugar nos espíritos, capazes de séries auto-reflexivas que, como diz Leibniz, nos elevam cada vez mais “acima  de nós mesmos”.

Perfeição e temporalidade em Leibniz (apoiado pelo CNPq, concluído)

O objetivo é investigar o modo como se relacionam, no pensamento maduro de Leibniz, as noções de perfeição e de temporalidade, tanto “extrinsecamente”, pela análise de seu modelo histórico decorrente da hipótese de um Retorno ou Restituição Universal das substâncias ao longo de ciclos temporais ascendentes, como “intrinsecamente”, pela análise de sua concepção de uma temporalidade, cíclica ou não, inseparável do processo de aperfeiçoamento das próprias substâncias.

Prof. Edgar de Brito Lyra Netto

O lugar da interrogação filosófica na era técnica

A pesquisa se organiza em torno do lugar do pensamento filosófico num mundo progressivamente mais técnico, palco de transformações cada vez mais substanciais e velozes, possivelmente irreversíveis e imprevisíveis em seus desdobramentos. Ocupa-se, mais pontualmente, do possível desenvolvimento de interfaces entre a Filosofia e a sociedade contemporânea, visando à irrigação desta última com a necessária interrogação sobre o sentido do seu atual desenvolvimento. Lida, em suma, com injunções éticas, políticas e pedagógicas, tendo como referências Martin Heidegger e Hannah Arendt (discussão sobre a atual hegemonia tecnológica), e a Retórica de Aristóteles (revisão das possibilidades e formas de compartilhamento do pensar filosófico).

Ciência, natureza, informações e saberes (concluído)

Coordenação: Maria José Carneiro (CPDA/UFRRj) e Rejan Bruni (PUC-Rio/JBRJ)
Colaborador: Edgar Lyra (PUC-Rio)
http://r1.ufrrj.br/cpda/cinais/equipe.html

O recurso crescente a argumentos científicos e técnicos na consolidação e legitimação de decisões no âmbito da prática política tem colocado um novo desafio à sociedade, que afeta diretamente o campo da produção do conhecimento e o da elaboração de políticas públicas, qual seja, a necessidade de se criar mecanismos que facilitem e agilizem a comunicação entre a produção do conhecimento e os tomadores de decisão na esfera pública. A rapidez com que consensos científicos são refeitos com base em uma produção de conhecimento cada vez mais vasta e complexa acrescenta enormes dificuldades a essa comunicação. Como dar conta da amplitude e diversidade dessa produção, incluindo os saberes da população local e, ao mesmo tempo, como torná-la acessível aos tomadores de decisão sobre leis e medidas que afetam diretamente a sociedade? Como estreitar os mecanismos de comunicação entre uma esfera e outra, de maneira a oferecer um leque, o mais amplo possível, de alternativas sustentadas em conhecimentos consolidados e devidamente demonstrados? Quais são os conhecimentos mobilizados pelos gestores de políticas públicas (ou tomadores de decisão) e quais os caminhos de acesso a tais fontes? Até que ponto a maneira como a validação empírica dos conhecimentos mobilizados na ação (política) é efetivamente explicitada, avaliada e levada em conta pelos formuladores de políticas públicas? Essas são algumas das questões que mobilizam os pesquisadores deste grupo a investigar as relações entre o homem e a natureza, em uma abordagem multidiciplinar.

Implícitos antropológicos do debate ambiental

Este projeto de pesquisa envolve dois movimentos. O primeiro concerne ao cenário contemporâneo no qual se institucionalizou o chamado “debate ambiental”. Esse primeiro movimento pauta-se pela chamada de atenção para a atual inexistência de uma discussão mais substancial sobre o homem, como ente cujas necessidades devem ser prioritária e imperativamente satisfeitas, agora de forma sustentável. O segundo esforço é o de irrigar esse debate, tão organicamente quanto possível, com questões postas a partir da obra de Martin Heidegger. Não se pretende com isso reivindicar para esse filósofo nenhuma verdade definitiva sobre o homem e seus direitos em relação ao cosmos, mas encontrar meios de avançar discussões decerto seminais dentro do atual quadro de urgências e promessas.

Prof. Edgard José Jorge Filho

Filosofia teórica e filosofia prática em Kant

Pretende-se dar continuidade à investigação de aspectos da Filosofia Teórica e da Filosofia Prática de Kant, especialmente de seus fundamentos, bem como à pesquisa das relações entre essas duas divisões do sistema filosófico kantiano.

Ética e a questão ambiental

Pretende-se investigar se há modelos de ética adequados para avaliar e reorientar a relação do homem com o meio ambiente, que se caracteriza até agora como uma utilização altamente predatória dos recursos naturais, geradora de uma crise ambiental sem precedentes e que representa uma gravíssima ameaça para o futuro. Reconhecendo-se tais modelos, caberia identificar-lhes os pressupostos e examinar a justificação dos mesmos. Para começar, pode-se propor como candidatas a Ética da Responsabilidade, de Hans Jonas, e as variantes das Éticas Ecocêntricas.

Profª Irley Franco

As teses de Aristóteles sobre as poesias épica e trágica na Poética

O objetivo do projeto é o de empreender uma análise da teoria do gênero trágico proposta por Aristóteles na Poética, com o apoio de seus comentadores e intérpretes mais relevantes, e, ao mesmo tempo, cotejar os resultados de tal pesquisa com o exame pormenorizado de textos dos poetas trágicos e épicos da Grécia Antiga. A pesquisa envolve o estudo exaustivo de noções-chave para a compreensão da teoria aristotélica, tais como mythos, catharsis, mimesis, tykhe, praxis, hamartia, etc., e a identificação desses elementos nas obras literárias gregas, recorrendo sempre ao original grego. Édipo-Rei de Sófocles, a tragédia considerada exemplar pelo próprio Aristóteles, e Homero, pai tanto da tragédia quanto da comédia, são tomados nesta pesquisa como marcos referenciais para o estudo de todas as demais obras relacionadas ao tema. O projeto articula uma série de pesquisas desenvolvidas por professores e alunos de pós-graduação; é tema do pós-doc da autora e tem rendido inúmeros cursos e diversas teses e dissertações.

Platão e o platonismo

Um dos principais problemas relativos ao estudo de Platão é saber distinguir sua filosofia das inúmeras interpretações que dela se fizeram no decorrer dos séculos, pois Platão não é apenas a referência histórica ao momento em que tudo começou, mas é o ponto de origem ao qual se reporta ativamente toda filosofia. O objetivo desse projeto é distinguir a “filosofia de Platão” de “platonismo”, isto é, do modo como a História da Filosofia compreendeu e transmitiu ao longo dos séculos a obra “escrita” de Platão, pois platonismo é uma determinada representação da filosofia de Platão que não raro parece contradizer o conteúdo dos próprios diálogos. Como o tema é muito extenso, proponho nessa abordagem inicial tratar de duas características atribuídas à filosofia de Platão que, em minha opinião, serviram para a formação de uma série de mal-entendidos acerca do conteúdo dos diálogos: o doutrinarismo e o dogmatismo. Por doutrinário entenda-se todo pensamento que se sustenta por uma série de preceitos que se afirmam verdadeiros e que, enquanto tal, pretendem constituir um sistema acabado, capaz de fornecer respostas definitivas às questões que se lhe apresentam. Por dogmático, o pensamento que, além de doutrinário, apoia suas doutrinas em certos dogmas, isto é, em certas verdades fundamentais e incontestáveis.

O erro mais vulgar cometido por certas formas de platonismo encontra-se nas interpretações que baseiam suas conclusões sobre a filosofia de Platão somente nos diálogos da fase da maturidade (República, Banquete, Fédon, etc.), reduzindo portanto todo o pensamento do filósofo a um único aspecto de sua obra. Meu objetivo não é tratar desse Platão estereotipado, embora esse estereótipo se tenha tornado historialmente real, na medida em que muito da filosofia posterior se irá desdobrar justamente a partir dele. Meu objetivo é antes tratar de um problema um pouco mais delicado e que diz respeito a uma determinada tradição construída pelos próprios estudiosos de Platão e que consideram a teoria das ideias como sendo a questão central dos diálogos e que portanto supõem que a intenção primordial de Platão seja a de transmitir a seus leitores essa teoria como uma espécie de lição que, uma vez aprendida, os torne capazes de encontrar respostas finais sobre a realidade, o conhecimento, a vida política, moral, etc., e não o que os diálogos em seu conjunto demonstram ser o mais verossímil, a de tentativamente mostrar como se desenvolve uma disposição apurada e inteligente para o exame e o conhecimento de si e do mundo, através do exercício comunitário, ou, se se quiser, dialógico, do pensamento.

Prof. Ludovic Soutif

Referência e pensamento: uma investigação crítica do singularismo (em andamento; apoiado pelo CNPqBolsa PQ)

O presente projeto dá sequência ao anterior. Trata-se de investigar criticamente várias propostas de defesa do singularismo, ou seja, da tese de acordo com a qual nem todos os nossos pensamentos sobre o mundo são gerais ou qualitativos, sendo alguns deles direta e genuinamente acerca de objetos particulares. Buscaremos defender o singularismo diante das objeções dos generalistas. No entanto, não basta defendê-la por meio de argumentos filosóficos gerais. É preciso estabelecer a maior plausibilidade do singularismo em relação às questões mais disputadas hoje na interface entre teorias da referência e do pensamento. Entre elas, a de saber se basta que o conteúdo (do pensamento) seja singular para que o próprio episódio mental seja; a da legitimidade das inferências imediatas da referência ao pensamento singular; a da existência ou não de espécies semânticas e cognitivas naturais; a da necessidade ou dispensabilidade de requisitos epistêmicos tais como o de acquaintance, do conhecimento discriminatório do objeto pelo sujeito; ou ainda da natureza dos mecanismos cognitivos envolvidos pela formação de representações singulares de objetos.

Pensamento singular: aspectos semânticos, metafísicos e cognitivos (concluído; apoiado pelo CNPq-Edital Universal 14/2012 e pela PUC-Rio com Bolsa de Produtividade em Ensino e Pesquisa)

A questão da natureza dos nossos pensamentos sobre o mundo está no centro de muitos debates hoje em filosofia analítica na interface entre filosofias da linguagem, da mente e da lógica, metafísica e epistemologia. Um aspecto do debate diz respeito à contraposição entre pensamentos singulares e gerais (descritivos). Costuma-se definir aqueles como pensamentos acerca de particulares enquanto particulares (X instanciadores de propriedades). Há controversia sobre o que faz com que um pensamento seja singular. Há quem (na verdade, uma tradição inteira de pensadore(a)s na esteira dos teóricos da referência) acha que devem ser explicados em termos de relação a conteúdos singulares no âmbito de uma teoria metafísica de proposições. Outros (e.g. Crane, Azzouni, Jeshion) preferem explicar o fenômeno em termos cognitivos ou psicológicos. Outros ainda (e.g. Recanati) tentam combinar ambos os tipos de explanação. Meu objetivo, no presente projeto de pesquisa, é contribuir ao debate ao promover uma aproximação do fenômeno (do pensamento singular) que integrasse os diversos aspectos ressaltados por essas tentativas de explanação.

Variedades do expressivismo lógico (em andamento)

Trata-se de um projeto em história da filosofia analítica e da lógica. O propósito é destacar e estudar criticamente versões possíveis da tese de acordo a qual a lógica tem, antes de tudo, uma função expressiva. Há a versão de Brandom segundo a qual o papel da lógica (isto é, da linguagem da lógica dos predicados de primeira ordem, enriquecida pelas locuções que visam explicitar o conteúdo representacional das atitudes proposicionais) é codificar as normas implícitas em nossas práticas de aplicação de conceitos. Mas existe outra versão pouco estudada da mesma tese esboçada por Frege e pelo Wittgenstein do Tractatus. De acordo com ela, a tarefa da lógica é articular nosso pré-entendimento das características lógicas das expressões envolvido no reconhecimento das mesmas como sendo de tal e tal tipo por meio de traços das linguagens formais usadas para representá-las. Essa concepção fisionômica da identidade lógica das expressões linguísticas desempenha um papel importante, por exemplo, na teoria fregeana da identidade lógica das expressões conceituais e também para a resolução do problema do caráter inexprimível da categoria lógica de um termo no Tractatus. Eis são os autores usados para destacar essa variedade inédita de expressivismo lógico: Anscombe, Geach, Dummett e Diamond.

Profª Luisa Severo Buarque de Holanda

Gêneros literários em Platão

Partindo da antinomia natureza x convenção, em sua peculiar ligação com o tema da origem das palavras e do estabelecimento da língua, o diálogo Crátilo nos fornece um exemplo privilegiado, em Platão, daquilo que se convencionou chamar de recepção literária. Por meio de um ajustamento entre o tema proposto e a estratégia para atacá-lo, o filósofo acaba por incorporar – e ao mesmo tempo modificar – uma série de gêneros literários já tornados tradicionais, e outra série de gêneros ainda emergentes, cunhando assim o seu próprio gênero literário, ao qual devemos em larga medida a linguagem filosófica tal como a empregamos até hoje. O reconhecimento desse fator é capaz de gerar um viés metodológico bem específico, no tocante à interpretação da obra platônica. Trata-se da abordagem dos diálogos por meio de suas ressonâncias literárias e alusões a obras, filosóficas ou não, de outros autores importantes da tradição helênica, acrescida de uma investigação detalhada e cuidadosa acerca de sua estrutura de composição. Toda obra platônica pode ser analisada sob esse prisma, e tais análises não apenas são fecundas por si mesmas, como podem ser de grande auxílio no que tange à leitura mais propriamente filosófica do texto e do subtexto platônico. Em suma, será o caso de mostrar que as estratégias autorais mais características dos diversos gêneros são adotadas e reinventadas pelo autor Platão, e, ademais, que a importação de tais estratégias para o corpo literário filosófico tem implicações importantes no que diz respeito ao próprio linguajar da filosofia, bem como à história da reflexão filosófica acerca do tema da linguagem.

História da filosofia da linguagem na Antiguidade (com Bolsa de Incentivo à Produtividade em Ensino e Pesquisa da PUC-Rio)

O projeto pretende, antes de mais nada, retraçar o percurso das investigações acerca de temas ligados à linguagem na Antiguidade grega, começando por fragmentos de pensadores pré-socráticos tais como Heráclito, Parmênides e Demócrito, passando por diálogos platônicos tais como o Crátilo e o Sofista e pelo Organon aristotélico, e culminando na filosofia estoica. A pesquisa tem como objetivo destacar tanto as heranças temáticas quanto as inovações metodológicas que surgem no referido período de tempo, e entre os pensadores acima mencionados. Da palavra e da sua relação com as coisas designadas até a semântica proposicional e a questão da verdade e da falsidade no discurso, a pertinência dos temas ligados à língua torna-se tanto maior quanto mais se percebe que, no pensamento grego, ele nunca está desvinculado das diversas ontologias e políticas que o fundamentam.

Práticas e teorias da poética na Grécia antiga: de Parmênides a Aristóteles 

Projeto de cooperação internacional entre o Grupo de Pesquisa do Laboratório OUSIA: Estudos em Filosofia Clássica (registrado no DGP do CNPq) com outros quatro centros de pesquisa brasileiros em filosofia antiga e o Centre Léon Robin da École Normale Supérieure / Universidade de Paris IV para pesquisar as origens da Filosofia ocidental. Para além de uma perspectiva histórico-filosófica limitada aos fatos, personagens e escolas, o projeto visa refletir sobre as transformações operadas no plano da linguagem, para propiciar os modos discursivos e cognitivos originais da Filosofia ocidental. A visada se abre não para as doutrinas ou as proximidades pessoais (no tempo e no espaço), mas antes para as formas, os gêneros e as estratégias de discurso. A compreensão de que a filosofia se origina em meio a experiências sapienciais, pelas formas tradicionais de poesia, como a épica, e pelas novas formas que surgem nos séculos sexto e quinto antes de Cristo, como a comédia e a tragédia, determina uma atenção especial para os gêneros literários com suas estratégias retóricas e poéticas de expressão. Objetivos do Acordo: 1. Estreitar os vínculos de pesquisa, discussão e produção filosóficas entre os pesquisadores dos laboratórios franceses Centre Léon Robin e “E.A. 4081 Rome et ses renaissances” (Univ. Paris-Sorbonne-Paris IV e École Normale Supérieure) e dos laboratórios brasileiros OUSIA (UFRJ), NFA (UFF), NOESIS (UERJ), ARCHAI (UnB) e NUFA (PUC-Rio), em torno de ações comuns tais como: reflexão sobre temas de história da filosofia antiga, realização de eventos, edição de revistas especializadas, publicações de livros e artigos, produções artístico-educativas. 2. Formar quadros (pesquisadores doutores e pós-doutores) capazes de tratar filosófica e filologicamente os textos dos filósofos antigos no mais alto nível científico e acadêmico. Procurar estabelecer co-tutelas para os doutorandos e linhas de continuidade em suas pesquisas. 3. Pesquisar as teorias e as práticas das formas de expressão sapiencial antigas, particularmente suas reflexões voltadas sobre a poética e as teorias do conhecimento. Investigar e discutir a repercussão das diversas influências discursivas na filosofia: epopeias cosmogônicas, discursos dramáticos, disputas forenses; como também permitir apreender a originalidade das novas experiências filosóficas: o poder do argumento, a universalização conceitual, a sintaxe categorial etc. Destacar a recepção dos filósofos antigos ao longo da história e suas contribuições para o mundo atual. 4. Produzir aparato crítico, traduções e reflexões filosóficas sobre os textos de filósofos antigos e suas fontes. Publicar e divulgar, por meios impressos e hipertextuais os textos-base e toda a produção em torno deles, especialmente as traduções.

Teorias da causalidade e ação humana na filosofia grega antiga

A noção de causa tem um papel central na investigação filosófica da Antiguidade. Dos pré-socráticos à filosofia grega tardia, é sempre objeto de investigação não somente o que é causa de quê, mas também, e fundamentalmente, o que se quer entender por algo ser a causa de algo. Há um estreito vínculo, na filosofia grega, entre uma doutrina da causalidade, dirigida em especial ao mundo físico, e a da responsabilidade moral, central no domínio humano das ações. Já na linguagem corrente do grego antigo tal estreita relação é visível, pois aitios designa quem é o responsável por algo, prioritariamente no sentido jurídico negativo de quem é o “culpado” por algo; rapidamente, contudo, o uso da língua expande o sentido negativo de culpa a um sentido geral de responsabilidade, que engloba também os casos a serem louvados, e a esta primeira expansão no uso do termo acrescenta-se um outro, de caráter agora claramente filosófico, que se aplica em especial à noção de aitia e que a desvincula do estrito domínio humano,  aplicando-a a todas as coisas, o que gera o sentido nosso familiar de “causa”, “o que está na produção, na origem de algo”. A noção geral de causa, particularmente decisiva no discurso sobre a natureza, guardará sempre, porém, esta ligação com a noção de responsabilidade na ação humana, onde, aliás, tem sua origem. O presente projeto visa a estudar as diferentes propostas e teses apresentadas pelos filósofos gregos antigos a respeito da natureza da causa e, em estreita relação com esse tema, busca igualmente mapear a reflexão sobre a ação humana e sobre o modo como o homem pode ser inscrito como causa de certos eventos, a saber, como causa de suas ações.

Prof. Luiz Camillo Osorio

Juízo, crítica e curadoria: deslocamentos da arte na era dos museus (em andamento; apoiado pelo CNPQ – Bolsa PQ)

A cada dia surge um museu novo no planeta.  As feiras de arte e bienais multiplicam-se por toda parte. Em um mundo assolado por uma crise financeira global, a arte se mostra um ativo com taxas de retorno exorbitantes. Será que a arte resiste a esta captura sistemática, mantendo alguma potência estética e insubmissão política? Será que ela ainda é capaz de produzir “ideias estéticas”? Será que ela resiste minimamente aos parâmetros absolutos do mercado? Ainda faz sentido discutirmos ou defendermos alguma autonomia para a arte e a experiência estética? O que pode a arte?  As relações entre estética e política acompanharam a história da arte moderna, seja pelas dificuldades relacionadas ao ajuizamento das obras, seja pela recusa recorrente, por parte da arte, às formas de visibilidade e sociabilidade vigentes. Nosso objetivo será de analisar as condições do ajuizamento, da crítica e seus desdobramentos curatoriais em uma época na qual a arte está inserida irreversivelmente nos museus – mesmo quando atuam fora de seus muros – e estes parecem a serviço da lógica espetacular, do consumo desenfreado e da indústria cultural e do turismo. Como resistir a esta captura e dar à arte alguma liberdade experimental? Como articular arte com uma educação estética e política no interior dos museus?

Os espaços da crítica e os horizontes da política na arte moderna e contemporânea (concluído em 2016)

Pretende-se com esta pesquisa investigar o modo pelo qual uma sistemática desorientação em relação ao que pode ser denominado de ‘obra de arte’ levou, ao longo do século XX, a uma redefinição do papel da crítica e a uma aparente suspensão do ajuizamento. O ponto que me interessa discutir – em oposição a tal suspensão – é a articulação entre este não saber a priori o que seja arte e a necessidade de julgar; o fato de tudo poder ser arte não devendo implicar que qualquer coisa se torne arte. O que produz esta diferença é a capacidade de discernimento do juízo, que se realiza sempre dentro de territórios de sentido específicos. Uma primeira etapa desta pesquisa resultou na publicação do livro Razões da Crítica (Rio de Janeiro: Zahar, 2005). Agora quero ampliar a discussão das noções de juízo e crítica – em Kant, Schiller, Walter Benjamin, Hannah Arendt, Jacques Rancière e Thierry De Duve –, tendo como desdobramento a tentativa de repensar as relações entre arte e política na cena contemporânea. Artigos a partir deste tema serão escritos, assim como, eventualmente, a publicação de um livro reunindo todo o material produzido.

Prof. Luiz Carlos Pinheiro Dias Pereira

Verdade e modalidade de um ponto de vista construtivo (apoiado pelo CNPq)

A partir do final da década de setenta, os principais construtivistas semânticos passaram a considerar a conveniência/necessidade de uma noção construtiva de verdade. Tal noção construtiva de verdade deveria satisfazer três condições básicas: [1] Ser construtiva, [2] não ser redutivel à noção de assertabilidade justificada, e [3] ser objetiva. O objetivo principal do projeto é investigar criticamente algumas propostas para um conceito construtivo de verdade e o tratamento construtivo dos conceitos modais de necessidade e possibilidade.

Identidade de provas (apoiado pelo CNPq)

O objetivo principal do projeto é investigar criticamente os principais critérios propostos para o problema da identidade de provas. Buscaremos mostrar que o conhecido colapso categórico pode ser obtido para a lógica intuicionista por meio da introdução de um novo procedimento de redução para a dedução natural. De fato, tal operação de redução nos coloca diante de um dilema: completude X princípio de sub-fórmula.

Profª Maura Iglésias

Methexis e mimesis em Platão (apoiado pelo CNPq)

A relação entre sensível e inteligível é descrita por Platão ora como uma “participação” do sensível no inteligível, ora como sendo o sensível uma “imagem” do inteligível. Esses dois modelos de relação entre sensível e inteligível são em geral vistos como equivalentes, em grande parte pelo testemunho de Aristóteles, que afirma em Met. A6 que Platão teria usado (aparentemente para falar da relação entre idéias e coisas sensíveis) o termo methexis para aquilo que os pitagóricos chamavam mimesis, ao falarem da relação entre números e coisas. Entretanto, as diferenças entre as noções de participação e de imagem não passaram despercebidas por comentadores modernos, que talvez tenham exagerado essas diferenças, tirando conclusões que não foram aceitas, total ou parcialmente, por muitos dos mais importantes comentadores. A pesquisa aqui proposta é a de investigar, a partir da análise dos mais importantes textos platônicos onde aparece o tema da relação entre sensível e inteligível, as conotações de ambos os modelos usados por Platão para falar dessa relação. A investigação certamente exigirá uma leitura cuidadosa de vários dos diálogos mais importantes, pertencentes a todas as consideradas “fases” do pensamento platônico. Paralelamente, uma vez esclarecidas as conotações da noção de mimesis, que lhe dão um papel relevante na ontologia platônica, espera-se chegar a resultados interessantes a respeito da relação de Platão com as artes (belas artes). O resultado esperado é uma série de artigos, que serão apresentados em eventos e, em princípio, publicados); também, em vista da extensão do tema, que literalmente atravessa toda a obra platônica, provavelmente teremos material para um livro sobre o assunto.

Platão e as matemáticas (apoiado pelo CNPq, no âmbito do edital CNPq 32/2004)

É conhecida a influência das matemáticas no pensamento de Platão, tanto no que se refere à constituição de seu método investigativo, quanto à aplicação de conhecimentos e procedimentos matemáticos para a elaboração de suas grandes teses. Todas elas, aliás, provavelmente consideradas por ele mesmo como hipóteses, à maneira dos matemáticos. O projeto é o de articular vários trabalhos que já estão sendo desenvolvidos por professores e estudantes de pós-graduação do Núcleo de Estudos de Filosofia Antiga da PUC-Rio, que, embora distintos entre eles, têm como eixo o estudo sobre os conhecimentos matemáticos na época de Platão, a utilização que ele fez desses conhecimentos, a extensão dos conhecimentos matemáticos do próprio Platão, e, talvez, contribuições que ele próprio e outros pesquisadores da Academia seus contemporâneos tenham feito para o avanço dos conhecimentos então considerados matemáticos, que incluíam música e astronomia. Os projetos individuais abordam vários aspectos dessas questões, que dizem respeito não só à obra escrita de Platão, mas também à sua chamada doutrina oral. Assim, além da análise dos textos platônicos pertinentes, e de seus comentadores mais relevantes, o projeto contempla análise (e crítica) dos textos aristotélicos relevantes para a reconstituição da doutrina oral de Platão bem como análise dos textos de matemáticos antigos (não necessariamente contemporâneos de Platão), juntamente com seus estudiosos e comentadores. Os resultados das pesquisas serão apresentados em seminários ao longo do ano, de que participarão todos os membros da equipe, além de convidados. Além disso, como parte deste projeto, programamos convidar, para nosso Fórum de Filosofia Antiga, atividade permanente do nosso Núcleo de Estudos, estudiosos das matemáticas antigas e de suas relações com a filosofia, para apresentação de resultados de suas pesquisas. Esperamos ter material interessante para a publicação de um volume sobre o assunto, reunindo trabalhos da nossa equipe e dos pesquisadores convidados.

Prof. Maxime Rovere

Espinoza. Tradução, anotação e apresentação das obras completas

Por mais de dez anos o projeto de renovação da apresentação dos textos e do pensamento de Espinosa tomou a forma de uma tradução gradual de suas obras, a qual começou com as cartas (Correspondance, GF, 2010), e cujo aspecto teórico foi apoiado por um trabalho monográfico (Spinoza, Méthodes pour exister, Edições CNRS). Desenvolvido em francês com um editor francês (Flammarion), este trabalho continua no Brasil, sendo enriquecido nesta nova fase com novas direções de interpretação.

Nossa tradução da Ética, ainda em preparação, pretende originar um trabalho de anotação coletivo destinado a realçar as diferentes abordagens do texto. Isso será feito tanto em termos da lógica quanto da história social da ciência, e tanto sob a luz da biografia individual quanto das instituições religiosas, políticas e acadêmicas.

Esta reflexão deve gerar uma leitura renovada do texto. De fato, a ordem matemática sugere que a ética é inequívoca, ou seja, que as definições, proposições e demonstrações – e, em menor grau, os escholios – têm todos um valor de verdade matemática. Essa ordem sugere também que as ideias formam um sistema completo de verdades sincrônicas, e que a consistência do assim chamado “sistema” é baseada na plena compatibilidade das suas partes.

Este projeto de pesquisa tem como objetivo desenvolver, em primeiro lugar, a dimensão polifônica e dialógica do texto. Espinosa usa léxicos diferenciados que sugerem vários modos de discurso, desde a lógica estrita até narrativas simples ou conversas mundanas. Esta polifonia rejeita a padronização do texto e ajuda na resolução de muitas dificuldades. Por outro lado, contra a ideia de que todas as teses são válidas simultaneamente, podemos então estudar como o texto, que foi escrito durante mais de quinze anos, forma um caminho diacrônico que consiste em etapas sucessivas cuja continuidade é dinâmica.

Os racionalistas em Amsterdã no século XVII. Para uma nova história da “modernidade”

Em Radical Enlightenment (2001), Jonathan Israel transformou a história da modernidade, propondo a mudança do movimento do “Iluminismo” para Amsterdã na década de 1660. Na sequência desta proposta, este projeto de pesquisa examina as posições daqueles que Wiep Van Bunge chamou mais corretamente de “Francs-Tireurs”, por causa da diversidade das suas abordagens e do fato de que eles acabaram por “atirar” uns sobre os outros.

Este projeto pretende estudar as trocas entre iatroquímicos, anatomistas, entomologistas e metafísicos (Nicolaus Steno, Dirk Kerckrinck, Jan Swammerdam, Bento Spinoza); entre dicionários, enciclopédias e projetos políticos (Lodewijk Meyer Franciscus van den Enden, Adrian Koerbagh); e, finalmente, entre os teólogos cristãos ou judeus (Adam Boreel, Galeno, Abrahamsz, Uriel da Costa, Juan de Prado). A circulação de ideias através de formas diferenciadas torna possível repensar o nascimento da modernidade.

Finalmente, este projeto tem a intenção de usar as ferramentas da história globalizada para pensar a contribuição do Brasil no desenvolvimento de uma modernidade concebida como “europeia”, examinando em especial a importância das trocas de mercado e das histórias de viagens para a teologia e a metafísica modernas, com atenção especial para a comunidade judaica em Recife e a experiência da guerra intercolonial.

Prof. Oswaldo Chateaubriand Filho

Temas em filosofia da lógica, filosofia da linguagem e filosofia da matemática (apoiado pelo CNPq)

Meu projeto de pesquisa para este e os próximos anos deriva das pesquisas apresentadas em meus livros Logical Forms. Part I: Truth and Description(2001) e Logical Forms. Part II: Logic, Language, and Knowledge (2005). Vários temas tratados nestes livros merecem um desenvolvimento maior, e alguns deles me ocuparam nos últimos anos e estão me ocupando presentemente.

1. Teoria das descrições. No capitulo 3 de Logical Forms, apresentei uma nova teoria de descrições definidas que combina idéias de Frege e de Russell. Nos artigos “Descriptions: Frege and Russell combined” (2002) e “Deconstructing “On Denoting”” (2005), elaborei alguns aspectos da teoria. Também em algumas conferências, especialmente na conferência “A Theory of Descriptions”, apresentada no Logic Colloquium na Universidade da Califórnia em Berkeley em 2006, comecei a elaborar uma extensão da teoria para descrições plurais, que é um problema bastante complicado que pretendo desenvolver em mais detalhe.

2. Sentido, referência e conotação. Nos capítulos 11 e 13 de Logical Forms, apresento uma teoria dos sentidos inspirada em Frege, que combino com idéias de Kripke sobre referência e com idéias descriptivistas de Russell e outros sobre conotação. Tenho elaborado estas idéias em varias conferências nos últimos anos e também no artigo “The truth of thoughts: variations on Fregean themes” (2007, no prelo). Uma continuação deste artigo intitulada “Sense, reference, and connotation”, está planejada para ser publicada em Manuscrito ainda este ano.

3. Predicação, verdade, falsidade e negação. Nos capítulos 1, 6 e 12 deLogical Forms, apresento uma teoria da verdade como denotação de estados de coisas e uma teoria da predicação segundo a qual toda sentença tem estrutura predicativa. Isto permite uma caracterização da falsidade de uma sentença como verdade da negação predicativa desta sentença. Estas idéias também têm sido elaboradas um pouco mais no artigo “The truth of thoughts: variations on Fregean themes” e formam parte do projeto sobre falsidade e negação do PROCAD entre a PUC-Rio, a UFSM e a UFC.

4. Discussão do segundo volume de Logical Forms. Em 2004 foi publicado um número especial de Manuscrito (volume 27 -1) com 11 artigos críticos sobre o primeiro volume de Logical Forms e minhas respostas detalhadas. Está em preparação um outro número especial de Manuscrito (a ser publicado em início de 2008) sobre o segundo volume de Logical Forms, com aproximadamente 20 artigos críticos e minhas respostas. Isto certamente me levará a repensar e elaborar muitas questões tratadas em meu livro.

5. Filosofia da matemática. Sempre foi minha intenção elaborar minhas idéias sobre filosofia da matemática. Questões importantes de filosofia da matemática são tratadas em vários capítulos de Logical Forms, especialmente os capítulos 9, 10, 19, 20, 21 e 25, e também no artigo “Platonism in mathematics” (2005). Pretendo desenvolver estas idéias em mais detalhe em um volume complementar aos volumes de Logical Forms, no qual já estou trabalhando.

Prof. Paulo Cesar Duque-Estrada

Crítica da representação: Heidegger e Derrida

Explorar os vários aspectos envolvidos na recepção derridiana da crítica da representação que se encontra na trajetória de Heidegger em direção ao “pensamento do Ser”, em contraste à ordem do “cálculo”.

Subjetividade e crítica do sujeito

Com base no pensamento da desconstrução (e algumas de suas influências: Nietzsche, Freud, Heidegger, Levinas) pretende-se explorar as implicações filosóficas e ético-políticas de um deslocamento que se propõe sobre a centralidade do sujeito, não com o intuito de apagá-lo, mas de conceber a “relação a si” – enquanto estrutura heterogênea, fragmentada, não auto idêntica – como algo que diz respeito a todas as coisas. A “subjetividade”, portanto, deixa de ser uma característica exclusiva do “humano”.

Desconstrução da linguagem e escritura: caminhos para uma outra política

O objetivo desta pesquisa é explorar a relação entre a desconstrução do conceito de linguagem que se verifica nos primeiros textos de Derrida, notadamente em Gramatologia, e a maneira singular em que a dimensão da política se configura através de sua obra.

Prof. Pedro Duarte de Andrade

O ensaio como forma na filosofia contemporânea

Mais conhecido como comentário cultural, o gênero do ensaio tornou-se essencial para a produção filosófica nos séculos XX e XXI, além de ter sido explicitamente analisado enquanto tal por autores como Georg Lukács, Walter Benjamin, Theodor Adorno e Michel Foucault. O estilo do ensaio, pessoal e atento à sua própria linguagem, traria um pensamento experimental, sem sistematização exaustiva do saber; atento às singularidades, por oposição à universalização lógica; com interpretações sem originalidade absoluta, mas apenas relativa; e uma preferência pela análise de obras de arte como instâncias críticas da sociedade. O objetivo deste projeto é triplo: analisar o estilo do ensaio enquanto prosa filosófica; mapear suas principais expressões contemporâneas; e investigar o contexto histórico que o tornou central para a filosofia atual.

Filosofia, literatura e arte

O objetivo deste projeto é analisar a importância da arte, em especial da literatura, para a filosofia, e descrever como se dá esse encontro produtivo entre elas a partir de casos singulares de filósofos que pensaram artistas e de artistas que instigaram filósofos. Se a filosofia já atacou a literatura, como Platão com Homero, e a interpretou, como Hegel com Sófocles, por sua vez a literatura já deu o que pensar à filosofia, como Hölderlin com Heidegger. Sobretudo desde o Romantismo, a literatura tornou-se mais que ilustração para teorias de filósofos. Walter Benjamin, Theodor Adorno, Gilles Deleuze, Michel Foucault e outros pensaram junto à literatura, com ela, através dela. O contato entre filosofia e arte foi decisivo para o pensamento contemporâneo e crítico, que destaca o caráter filosófico da literatura e o caráter literário da filosofia.

Filosofia antropofágica

Tomada em geral como explicação da cultura brasileira, a idéia da antropofagia, formulada por Oswald de Andrade nos anos 1920, pode ser entendida como uma filosofia, isto é, como modo de pensar firmado em uma ontologia e do qual derivam uma epistemologia, uma estética, uma ética e uma filosofia da história. O objetivo deste projeto é explicitar tal filosofia antropofágica, que defende a transformação do mesmo pelo outro, e não a transformação do outro no mesmo. Isso será feito pela análise da doutrina modernista brasileira e da obra de Oswald de Andrade, incluindo os seus textos filosóficos; das fontes aí implicadas, como Montaigne, Marx e Freud; da sua origem na prática indígena de canibalismo; e de seus desdobramentos no pensamento em canção de Caetano Veloso e no pensamento em arte de Hélio Oiticica.

Prof. Renato Matoso Brandão

Unidade e multiplicidade na ontologia dos últimos diálogos de Platão: uma nova interpretação para “um oceano de argumentos.”

A pesquisa tem como objetivo oferecer uma interpretação original para a ontologia defendida nos últimos diálogos de Platão, sobretudo pelos personagens eleatas Parmênides (apresentado no diálogo homônimo) e seu companheiro identificado apenas como o Estrangeiro (apresentado nos diálogos Sofista e Político). De acordo com a hipótese que guiará essa pesquisa, o diálogo Parmênides marca o abandono de uma ontologia fundada na separação radical  e na unidade absoluta das Formas. Tal abandono estaria dramaticamente representado pela crítica à Teoria das Ideias realizada nesse diálogo e pelo progressivo desaparecimento de Sócrates como o personagem pincipal de veiculação das teorias metafísicas platônicas.

Para que tal interpretação possa ser estabelecida, pretendo, em um primeiro momento, realizar uma análise minuciosa das deduções contidas na segunda parte do diálogo Parmênides. Tal análise fornecerá o material conceitual necessário para a demonstração de que esse conjunto de argumentos dedutivos está em relação de continuidade com as críticas à Teoria das Ideias que encontramos na primeira parte do diálogo, devendo ser compreendidos como o aperfeiçoamento e aprofundamento dessas críticas. Meu objetivo é demonstrar como todos os paradoxos presentes no diálogo Parmênides  são desdobramentos de um único problema ligado à Teoria das Ideias defendida pelo personagem Sócrates nos diálogos platônicos, a saber: a atribuição de separação e unidade absoluta às Formas.

Em um segundo momento da pesquisa, irei analisar como o personagem Estrangeiro apresenta, nos diálogos Sofista Político,uma ontologia imune às criticas do diálogo Parmênides e apta a lidar com complexos problemas e paradoxos de natureza mereológica. Pretendo demonstrar que, longe de representar o abandono dos preceitos fundamentais do platonismo, como defendem alguns comentadores, a ontologia do Estrageiro deve ser entendida como uma revisão e aperfeiçoamento da Teoria das Ideias defendida por Sócrates em diálogos como  FédonRepública Banquete.

O pensamento e a obra dos platonistas-médios

No vasto campo de pesquisa da História da Filosofia Antiga, um dos grupos de pensadores que receberam menor atenção por parte de tradutores, comentadores e intérpretes modernos é certamente aquele constituído pelos representantes do médio-platonismo. Compreendidos entre os séculos I A.C. e II D.C., os platonistas-médios constituem o grupo de filósofos afiliados ao platonismo localizados historicamente entre o fim da chamada “nova academia”, quando Antíoco rejeita os ensinamentos de inspiração cética de Philo de Larissa, e o florescimento do neo-platonismo, com Plotino, Porfírio e Próclo. A principal razão para a negligência com que os filósofos deste período foram tratados está representada na própria denominação de “platonistas-médios” que a crítica moderna os dedicou. Obscurecidos, por um lado, pela atenção dedicada aos grandes nomes do ceticismo acadêmico e, por outro lado, pela longa tradição de estudo da obra de Plotino e outros neo-platônicos, os chamados “platonistas-médios” passaram a ser vistos como um, muitas vezes inconveniente, meio de caminho entre essas duas correntes filosóficas. Como resultado, o estudante de filosofia, na maioria das vezes, desconhece completamente a existência de figuras como Antíoco, Plutarco e Albino ou passa muito apressadamente por estes pensadores enquanto percorre os caminhos que levam de Platão a Plotino.

O projeto de pesquisa “O Pensamento e a Obra dos Platonistas-Médios” pretende suprir uma rica demanda de investigação, ensino e publicação associada aos diversos aspectos da filosofia médio-platônica. O aumento do interesse acadêmico sobre esse período da História da Filosofia constata-se facilmente a partir do crescente número de publicações especializadas. Além disso, o fato de estarmos tratando de um campo de estudo ainda pouco explorado faz com que temas e debates originais surjam em grande quantidade. Com o intuito de lidar com tamanha diversidade de tópicos e tarefas, a linha de pesquisa divide-sem em três frentes de trabalho: tradução, interpretação e divulgação/ensino.

Prof. Rodrigo Nunes Guimarães

Imanência e ontologias pós-críticas

Em que pese boa parte da filosofia do século XX ter se autocompreendido em termos de uma superação definitiva da metafísica, questões e debates especulativos voltaram à pauta filosófica com força na última década. Não se trata, contudo, de um mero retorno a um dogmatismo pré-kantiano, mas de uma possibilidade interna ao espaço definido pela filosofia crítica, que se desenvolve na busca de uma redefinição do sentido e papel da filosofia não apenas em sua relação prática com o mundo, mas também em suas interfaces com diferentes áreas (biologia, física, matemática, ciência cognitiva). Para entender de que maneira diferentes projetos contemporâneos podem ser descritos como ontologias pós-críticas – especulativas e criticas ao mesmo tempo –, proponho o conceito de imanência como chave de leitura dos problemas que, iniciando na modernidade (com Spinoza, Kant, Hegel, Marx) vem desaguar na filosofia contemporânea.

Política em rede e a questão da organização

Há pelo menos uma década, estruturas reticulares ad hoc são identificadas como a forma característica de organização dos novos movimentos sociais, e elas são apresentadas como resolvendo problemas (como a burocratização, hierarquização e falta de transparência) de formas anteriormente existentes, como partidos e sindicatos. Ao mesmo tempo críticos da organização em rede a vêem como carecendo de capacidade de decisão e ação conjunta e tendendo à impermanência. No mais das vezes, a discussão gira em torno de estéreis tomada de partido entre “velho” e “novo”. Amparando-se tanto em debates clássicos sobre a questão da organização (em particular, mas não exclusivamente, na tradição marxista) quanto em aportes da filosofia contemporânea (pós-estruturalismo, pós-operaismo, pensamento sistêmico) e da ciência (teoria das redes), bem como de relatos e análises de fenômenos recentes como a Primavera Árabe e o movimento Occupy, busca, num primeiro momento, descrever de maneira rigorosa as formas emergentes de organização que caracterizam os movimentos sociais e políticos contemporâneos. Disto resulta tanto uma compreensão mais balanceada de suas vantagens e limites, como redefinições de conceitos como vanguarda, liderança, espontaneísmo e representação, propondo um vocabulário comum para além da oposição entre “velhas” e “novas” formas. Mais que uma tarefa meramente descritiva, contudo, a pesquisa se baseia na aposta de que é possível, a partir daí, promover uma reflexão consciente e um aprofundamento destas formas emergentes de organização, ressituando questões como subjetividade política, iniciativa e estratégia num novo terreno.

Política e poética no cinema brasileiro dos anos 60 e 70

O período que se estende dos anos 50 à metade dos 70 foi provavelmente o mais fértil da história cultural brasileira; e um dos problemas centrais para a série de propostas artísticas singulares surgidas no período (concretismo, neoconcretismo, Teatro do Oprimido, tropicalismo, cinema novo) é a questão do papel social e político da arte e do artista – ou, dito de forma mais geral, da cultura e do produtor de cultura. Este projeto se propõe a analisar o cinema brasileiro dos anos 60 e 70, perguntando como estes debates (e suas condições políticas e culturais mais amplas) se inscrevem nele. O interesse em fazer isto, contudo, não é meramente historiográfico: resgatar as diferentes propostas artístico-culturais do período, e elucidá-las a partir dos problemas a que buscavam dar resposta, tem como objetivo final relançar as mesmas perguntas de então no presente: quais são as continuidades e descontinuidades entre os problemas de então e os de hoje? O que permanece de atual nas soluções criadas naquele período, e o que precisa ser pensado? Trata-se, em última análise, de projetar uma época de intensa pesquisa e discussão sobre a dimensão social e político da cultura e dos produtores culturais sobre a época atual, de forma a indagar como as ideias de quase 50 anos atrás podem nos ajudar a pensar as mesmas questões dentro das atuais condições sociais e tecnológicas.

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